Jesuíta dá sua opinião

“As realidades humanas participam de radical ambigüidade. Quando as Escrituras se referem ao chamado de graça do paraíso e ao pecado primeiro de Adão e Eva, não nos narram fábulas nem mitos, nem mesmo fato histórico perdido nos inícios da humanidade. Mais: traduzem dimensão permanente do ser humano. Revelam-nos a face dividida de cada um de nós e de tudo o que criamos.

A tecnologia nasceu da inteligência humana, reflexo da mente divina, mas tisnada de tarjas escuras da ambição, da pretensão onipotente da criatura que se viu tentada, desde o início, a ser “como Deus”. Ela nasce como meio para transformarmos o mundo em cidade habitável. A simples natureza na dádiva direta de bens não supria as necessidades das crescentes multidões que ocupavam a Terra. Inventaram-se então meios que multiplicassem as plantações, que viabilizassem recursos para enfrentar o clima, as distâncias, o manuseio das coisas. Enquanto a técnica se comportava como simples meio, a vida se humanizava retilineamente. Entretanto, as confusões do coração humano misturam os meios com os fins. Lentamente a técnica assumiu tal importância, tal poder que se esqueceu da própria origem e se arrogou a importância de finalidade. Vale por ela mesma. E os humanos, inteligente ou bobamente, seguem-lhe os passos com avidez.

E então, vem a pergunta: que impacto ela causa na família? Sim. Muito. Ora para bem, ora para mal. Vejamos.

Que as mães, donas de casa, o digam! De quanto trabalho pesado de lavar roupa, de preparar refeições, de limpar a casa, de cuidar de inúmeros afazeres domésticos a tecnologia as libertou ou, ao menos, lhes aliviou a carga. Permitiu-lhes saírem de casa, trabalharem fora, moverem-se com maior rapidez de um lado para o outro. Se apagássemos de uma hora para a outra os inúmeros benefícios de um só dado tecnológico, p. ex., da eletricidade, que caos gigantesco geraríamos na cidade, em casa, na vida de cada um de nós. Já não nos pensamos a viver sem ela.

O pensador e romancista famoso, Umberto Eco, imaginou a cidade de Nova Iorque, em determinada noite, se ver totalmente na escuridão, por falta total de eletricidade. E ele descreve a loucura que aconteceria desde as lutas entre as gangues até a impossibilidade de chegar ao próprio apartamento no 100º andar de um prédio. Bendita tecnologia! Triste perda dela!
A última onda tecnológica vem da eletrônica. Essa estende os tentáculos por todos os lados de maneira sutil. Igualmente ambígua. Muitos preferem baixar a qualidade da comida, ao comprar arroz ou feijão ou outro comestível de nível mais baixo e barato, para não ter que restringir o uso do celular, da banda larga da Internet, da TV paga. A tecnologia de ponta impôs-se ao estômago.
Adentremo-nos no influxo desse tipo de tecnologia na família. De novo, para bem e para mal. Para bem: o mundo se tornou pequeno. Vivemos na aldeia global. As notícias de parentes chegam rápidas. Comunica-se de maneira quase gratuita com familiares a viver no estrangeiro pelo MSN ou Skype, Facebook, etc. Laços de amizade se tecem por todas as partes. Rompemos os círculos fechados da ignorância geográfica. As notícias a rodo atravessam o dia-a-dia, rasgando-lhe a monotonia rural de antanho.

Mais: os programas de busca põem-nos ao alcance do toque de uma tecla horizontes infindos de informações, conhecimentos, notícias, imagens, visitas a museus, caminhos por labirintos de séculos passados. Enfim, os olhos peregrinam “por mares nunca dantes navegados” com a facilidade barata da Internet.

Tudo tem preço. Não só econômico. O avanço rápido e de alta concorrência da tecnologia eletrônica anuncia custos cada vez menos pesados. O problema se transfere para o lado da afetividade, das relações humanas, dos valores. Aí a ambigüidade mostra os dentes raivosos do perigo.

Caberia longo discurso. Detenho-me na relação interna familiar. A refeição, já na tradição antiga da cultura humana, se vestira de caráter sagrado. Lugar privilegiado do amor no interior da família. Não por acaso, Jesus a valorizou ao longo da vida pública e no-la deixou como lugar da memória principal de sua presença: a Eucaristia em forma de ceia.

Pois bem. As refeições têm sofrido triste impacto da tecnologia midiática. Famílias preferem sentar-se à mesa diante da TV ligada de modo que os olhares vagueiam do prato para a tela, em vez de descansar no rosto dos convivas. As palavras entre as pessoas cedem lugar para os diálogos das novelas ou a voz do locutor televisivo. Enfim, a relação entre pais e filhos se transfere para o contato virtual com o aparelhinho das notícias e imagens. Desperdiçam-se os poucos momentos de encontro familiar para continuar-se na superficialidade vazia de tanta imagem e ruído.

Em outras famílias a Internet substitui a TV. Os jovens devoram rapidamente a comida para correr ao quarto e lá mergulhar no mundo fantástico dos sites. A conversa à mesa parece aborrecida demais em comparação com a enxurrada de emoções que a Internet provoca. Se a família não abrir o olho, a tecnologia midiática corroerá a beleza dos encontros entre os membros.”

Fonte: http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=1585

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